sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Génese de «Amigos Vale do Silêncio» do ponto de vista de um Amigo(Texto de Leonel Neves)

O bigodinho anda cá com uma passada!.. deve fazer bidiários… acho que já o vi numa prova ou duas, na partida, claro. Estou admirado não ter visto ainda aquele casal de meia idade... Aquelas mulatinhas também não têm aparecido, que será feito delas? Preferia a esbelta à gordinha. Ali vem um tipo conhecido. – Então como vai isso? – Vai... – Vai andando?! – Sinto uma... – Uma depressão?! – Não, não diria depressão, talvez inércia. Quando me sinto assim, resolvo fazer uma corrida, e este sítio é o melhor que há. – É uma excelente terapia. – Pode crer. Desde há dois anos mais ou menos a esta parte aconteceu-me de tudo – confessou. Primeiro foi o esquentamento que aquela tipa me pregou; depois foi a hérnia e por fim a hepatite. Felizmente já passou tudo. – São as vicissitudes da vida, cada um tem a sua cruz – respondi. Gostava de ouvir aquele professor universitário divagar, entre outras coisas, sobre as aventuras das suas alunas. O assédio sexual por parte de algumas, as perseguições por parte de outras, na biblioteca, na faculdade e na rua. Falava-me da tese de doutoramento que andava a fazer, das pesquisas que tinha que fazer, das horas a fio, enfiado na biblioteca à procura de material, da falta de tempo. Corria cerca de uma hora, nas calmas, é certo, mas corria. Vestia calção preto de Lycra, com uma espécie de saiote sobre o mesmo. Usava uma fita com o símbolo da Reebok na cabeça. Simpatizo com este sujeito de forte personalidade, ex-tenente miliciano do Exército. E a rapariga do jornal debaixo do braço? Não lhe devia ter mandado aquela boca, cada um corre como sabe e pode. Olhou-me circunspecta e esboçou um sorriso matreiro e inteligente. - Está no papo, pensei, mas enganei-me redondamente. Tenho-a visto várias vezes e sempre só. Dá três voltas, a passo, pelo alcatrão e desaparece por entre as árvores. E o engenheiro que em sessenta e cinco fez o estudo e construiu o aeroporto de Faro, onde comprou um oitavo andar para a sogra e esposa, as quais já faleceram, primeiro a mulher, depois a sogra, que tem um carcinoma, que anda a fazer quimioterapia, que aceitou trabalhar na ampliação da gare do referido aeroporto, não por razões económicas, essas já as resolveu há muito, mas para trazer a mente ocupada, que partiu a esquelética e agora sente a voz diferente, o ar escapar-se-lhe por entre os dentes, que diz que com sessenta e cinco anos já não está para correrias, que gosta de nadar e fazer ginástica, que faz reuniões de coordenação, que conhece pessoas que eu conheço, que ri quando se esquece da doença, esse homem alto e forte, de tez um pouco morena, sobrancelhas cerradas, simpático, bem-falante, nunca mais o vi. Homens, mulheres, novos e velhos fazem a sua corridinha ou jogam á bola.

Ontem, detrás daquela árvore, uma cinquentona fazia as suas necessidades fisiológicas. Abrigada pelo crepúsculo vespertino não imaginava que alguém a pudesse lobrigar. Passei rente a ela na minha passada cadenciada e lesta, qual avestruz a correr em terreno aberto e plano a trinta por cento das suas capacidades, fingindo que não a vi. Nem se mexeu. Olhou-me impávida, contemplativa, como um praticante de budismo, nas nuvens. Na passagem seguinte por aquele sítio já a mulherzinha tinha desaparecido. Há aqui um cheiro que tresanda, e não é a fezes, nem bicho morto, parece esperma, que árvore ou planta exala tal odor?! Um par de namorados acaricia-se mutuamente, sentado naquele banco de pedra; um poucochinho mais abaixo, um casal ainda jovem passeia sorridente com um bebé ao colo do progenitor; do lado oposto, no sentido ascendente, três homens e duas mulheres caminham, conversando sabe-se lá sobre o quê, talvez sobre as novelas brasileiras, ou sobre o aumento do custo de vida, ou sobre os problemas pessoais e familiares de cada um, ou a cortar na casaca de alguém, enquanto desfrutam da linda e agradável fim de tarde deste dia, e da harmonia deste habitat de melros e piscos, cigarras e grilos e outra passarada, e outra bicharada, invadido por humanos. Acolá, dois corredores de fundo, maratonistas, fazem exercícios de aquecimento, enquanto aquele grupinho terminou a corrida por hoje. Um veterano, com uns auscultadores nos ouvidos, executa um após outro todos os exercícios da pista, aqui e ali triste e infelizmente vandalizada. Dois cães brincam na relva, um atrás do outro. Um idoso faz jogging, outro, sentado na relva, tem nas mãos um livro que lê avidamente. É assim todos os dias, pelo anoitecer, e também de manhã e de tarde, no ano da graça de mil novecentos e oitenta e cinco, no Vale do Silêncio. E os meus camaradas de treino e amigos que não aparecem! Até que enfim, ali vem um, é o Silva, com o seu jeito inimitável de correr. - Olá, está tudo bem? Há muito tempo que chegaste? - Disse o meu amigo. – Está tudo ok. Já dei duas voltas ao percurso grande – respondi. - Estão a chegar o Melão, o Guy e o Licínio, os outros não devem tardar – acrescentei. – Temos de saber quem vai no domingo à prova para fazer as inscrições - disse o Silva. – Eu vou - respondi. – E eu também – disse ele.

No início existia o Vale do Silêncio, belo, sem dúvida, mas sem a azáfama desportiva e de lazer dos dias que correm; depois, alguns dos poucos frequentadores deste espaço, que não se conheciam de lado nenhum, unidos pelo gosto da corrida, deram-lhe vida, e acharam que era bom e necessário formarem um clube e, se bem o pensaram, melhor o fizeram, e ele aí está para as curvas, decorridos todos estes anos, mostrando a sua valia, dando luta, arrecadando prémios colectivos e individuais, lutando de igual para igual nas competições em que participa.

O Vale do Silêncio é um espaço verde dentro da cidade de Lisboa onde, como já se viu, serve de local de treino, de jogatinas de futebol, de convívio de pessoas amigas, de caminhadas, de namoricos, etc., etc. Existem aqui duas pistas, uma, de terra batida, outra, asfaltada, com aproximadamente mil e setecentos metros e mil metros, respectivamente. O terreno é bastante inclinado. Existe ainda um espaço relvado, do tamanho de três ou quatro campos de futebol, e bancos de madeira, e bancos de pedra, e árvores e plantas de várias espécies. Não vou alongar-me na descrição deste local que deu o nome ao clube «Amigos Vale do Silêncio». Como uma imagem vale por mil palavras, inclui-se neste pequeno texto, uma série de fotos do local em questão, tiradas recentemente, num fim de dia extremamente frio, daí ver-se tão pouca gente.

Aos nomes supracitados juntaram-se, não necessariamente por esta ordem, o Páscoa, o Gabi, o BTT, o Pascoal, o Emílio, o Moga, o Mário João, o Mário Silva, O Rafael, o Póvoa, o Fernando Silva e tantos outros a quem peço, desde já, desculpa por não os mencionar aqui e agora como mereciam. Uns saíram, outros entraram, outros hão-de sair e outros hão-de entrar, e assim há-de ser até à eternidade.

A existência de «Amigos Vale do Silêncio» pode ser dividida em dois períodos distintos. O primeiro, designado pré-Fernandino, teve início no alvorecer do Grupo e vai até ao momento em que o Fernando Silva se torna um Amigo de «Amigos Vale do Silêncio». Este período caracteriza-se pela anarquia desportiva, ou seja, pela falta de método de treino, pela ausência de convívio fora do local de treinos, enfim, pela individualidade. Cada elemento era o seu próprio treinador. No meu caso não tinha qualquer esquema de treino (e penso que os outros também não tinham), ia fazendo como via fazer; o segundo, designado pós-Fernandino, vai do fim do primeiro período até à actualidade. Com Fernando, as coisas entraram nos eixos. Passou a existir organização, planos de treinos personalizados a tempo e horas, preparação física colectiva em dias previamente estabelecidos, almoços convívio, informação actualizada sobre inscrição em provas, resultados individuais e colectivos obtidos nas mesmas. Às anteriores funções como mister acrescentou Fernando Silva as de gerente do blogue do clube o qual aconselho vivamente a visitar. Nesta área dispõe da prestimosa colaboração de Tiago Silva, um jovem atleta, entusiasta, no início de uma caminhada que se espera longa e gloriosa.

Pelo que atrás se disse e, sobretudo, pelo que ficou por dizer em seu abono, é o Fernando Silva merecedor de ver realçada a abnegação, a amizade e o carinho que tem demonstrado a todos os Amigos em todas as ocasiões e circunstâncias ao longo de todos estes anos.

3 comentários:

joaquim adelino disse...

Sublime! Parabéns ao Leonel por este excelente texto feito no tempo e no presente. É merecido a narrativa histórica, quer para "Os amigos do Vale do Silêncio" enquanto organização, quer para todos os que lá estão e os que por lá passaram. Eu aprendi a gostar deste Clube, não pelos resultados mas pelo espírito aberto e democrático como as coisas são tratadas e dicididas entre todos. Depois existe outra coisa ainda mais importante, é a familiaridade e irmandade que ladeia este grupo de amigos, é o grande respeito que nutrem entre todos eles e é também, honra lhe seja feita , a forma como esta rapaziada é conduzida, ou melhor, se deixa conduzir. Aqui o Leonel é bem explícito, o Fernando Silva tem um papel fundamental nesta caminhada de sucesso, só ele sabe o empenho e a disponibilidade que é necessário ter para conduzir este barco por linhas razoavelmente bem direitas. Mas isto também não seria possível, e penso que nem estaria disponível, se não estivesse rodeado de amigos verdadeiros, sinceros e honestos que o ajudam e motivam para prosseguir com esta tarefa, não nega apoio e ajuda a quem dela necessita, e têm sido muitos, dentro e fora da sua organização justificando assim o grande respeito e amisade que todos lhe retribuem.
Parabéns Leonel, eu não faço parte da família do Vale do Silêncio mas terei muita honra se um dia tiver a disponibilidade e a possibilidade de lá entrar.
Abraço

Tiago Silva disse...

Boa noite para todos,após ler este texto penso que não há muita coisa a dizer...desde já quero dar os meus grandes e sinceros parabéns ao Leonel por tê lo escrito e ter também recolhido as fotos que o ilustram.
Penso que para quem conheceu e conhece o Vale do Silêncio percebe que esta descrição do Vale está esplêndida.

Um Grande abraço para todos e bons treinos e textos :)

Milo disse...

Fiquei sem palavras, mas morrendo de saudades e com a lágrima ao canto do olho...